O Trilinguismo da Clara

A Clara é brasileira por parte de mãe e dinamarquesa por parte de pai e logo será oficialmente britânica pois nasceu em território britânico tendo ambos os pais como residentes permanentes na Inglaterra. Assim sendo, muitas pessoas nos perguntam que língua ela fala e a resposta é que ela ela fala as três!

Desde de que engravidei eu tinha certeza que nossa filha falaria português e dinamarquês, já que são as nossas línguas e de nossas famílias. O inglês nunca foi nossa preocupação já que nós sabíamos que a Clara o falaria por que nós vivemos na Inglaterra, onde ela além de frequentar a creche, ainda convive em vários ambientes onde o inglês é falado quase que exclusivamente;  e porque eu e Thomas, apesar de termos conhecimentos básicos da língua um do outro, sempre conversamos em inglês e portanto a Clara é sempre exposta à ele na forma que os linguistas chamam de “comunicação indireta”, ou seja, quando não estamos falando com ela, mas perto dela.

E porque nós queremos passar todas essas línguas para a Clara? Vejo muitas amigos meus no Brasil ensinando inglês para seus filhos pois reconhecem a importância de se saber uma segunda língua para o futuro. No nosso caso, é claro que nós sabemos das vantagens de se saber mais de uma língua, não só do ponto de vista educacional e profissional mas também do ponto de vista de desenvolvimento cerebral. Mas mais do que isso, para nós era a principal forma de apresentar nossa filha às nossas culturas, origens e história. Nós queremos que a Clara possa ir à Dinamarca e ao Brasil podendo se comunicar nas respectivas línguas e tendo pelo menos um conhecimento básico de costumes e  tradições locais. Isso quer dizer que não só precisamos ensinar palavras, mas também apresentar a Clara às literaturas, aos filmes, às comidas, músicas e tudo mais que constitui nossas culturas.

Um dos desafios do multilinguismo são os mitos relacionados à ele dos quais o maior deles é que o aprendizado simultâneo de duas ou mais línguas pode causar atrasos de fala e dificuldades de aprendizado. De fato, até pessoas na área de educação repetem esse mito como se fosse verdade. A realidade é que o multilinguismo não causa atrasos de fala e que cada criança tem seu ritmo. Algumas crianças multilíngues irão falar bem rápido em todas as suas línguas e algumas crianças monolíngues poderão demorar mais para falar apenas uma língua. Isso vai depender da criança e não do número de línguas.

Isso leva ao segundo desafio que é proporcionar  os ambientes necessários para o multilinguismo. A estratégia que nós escolhemos foi o OPOL (one parent, one language) na qual cada pessoa conversa com a criança na sua língua nativa e sendo assim eu sempre falo português e o  Thomas dinamarquês. Porém, para que a criança realmente tenha contato com a língua e ganhe vocabulário é preciso criar um ambiente favorável. Isso inclui por exemplo, acesso à livros, filmes e músicas. Contato com outras pessoas que falam essas línguas também ajuda bastante. Conheço casos de pais em Cambridge que organizam play groups onde somente uma língua estrangeira é falada. Um desafio grande aqui em casa é que o Thomas viaja muito e portanto a exposição da Clara ao dinamarquês é menor que às duas outras línguas. É claro que isso é fluido, mas por causa disso, quando ele está em casa nós maximizamos o tempo deles juntos para que ela pratique mais o dinamarquês.

Por outro lado, por morarmos em uma cidade universitária com pessoas do mundo todo, bilinguismo e multilinguismo são relativamente comuns. Nos grupos de bebês que a Clara frequenta ao menos 25% das crianças falam outra língua que não o inglês. Na creche dela isso é tão normal que na ficha de inscrição tem um espaço para informar quantas línguas a criança fala e os professores estão preparados para lidar e encorajar o multilinguismo.  Além disso até mesmo a biblioteca local da cidade disponibiliza livros infantis em várias línguas, incluindo o português. Ter um ambiente que acolhe o multiculturalismo e o multilinguismo ajuda muito nesse processo.

Outro fator que faz diferença é ter acesso às comunidades brasileira e dinamarquesa para que a Clara tenha outra fonte de exposição às línguas que não seja somente nós dois. Minha mãe visita sempre que pode (meu pai ainda trabalha e não pode viajar tanto) e nós viajamos para a Dinamarca sempre que podemos já que é uma viagem curta. Conversas via Ipad com os avós também são bastante regulares, praticamente todos os dias.

Multilinguismo e bilinguismo trazem vários benefícios para o desenvolvimento das crianças e de forma alguma causa qualquer tipo de atraso de fala. Para crianças que crescem em ambientes multiculturais, é mais uma forma de aprender sobre as suas culturas e portanto ajudar na formação da indentidade. Por outro lado, multilinguismo exige dos pais pesquisa, escolha de estratégias e consistência. Sobre as estratégias, isso fica para um próximo post. Por enquanto algumas dicas:

– Leia sobre bilinguismo e multilinguismo.

– Escolha uma estratégia: Há diferentes formas de adotar o multilinguismo: One parent, one language (um responsável, uma língua); minority language at home(segunda língua em casa),  e time and place (lugar e hora) são estratégias usadas diretamente com a criança e por outro lado é também importante haver uma estratégia para quando houver terceiros no ambiente.

– Seja consistente em relação às estratégias

-Crie ambientes favoráveis: Livros, filmes, rotinas, celebrações nacionais como carnaval ou Natal, tudo isso gera interesse na língua que você quer passar

-Informe a família e amigos sobre suas escolhas: Avise aos familiares qual língua que você quer que se fale com seu filho. Por exemplo, meus pais falam inglês, mas com a Clara somente em português.

– Entenda como  a creche/escola da criança se posiciona em relação ao multilinguismo. Se a escola ou creche do seu filho vier com esse papo de que multilinguismo é ruim, considere mudar de escola.

– Estimule que seu filho fale sua língua mas sem repreender quando ele opta por falar outra: Seu filho provavelmente terá uma língua favorita o que é fluido de duas formas. Em primeiro lugar ele pode se sentir mais à vontade falando em uma língua em geral e isso pode mudar com o tempo devido à exposição. Em segundo, ele pode preferir usar uma língua para algumas coisas e outra para outras. Por exemplo, a Clara gosta de falar as cores em inglês, mas na hora de dormir ela quase sempre avisa em português. Isso acontece com qualquer pessoa bilíngue ou trilíngue já que na maioria dos contextos sociais há uma língua dominante. Uma estratégia boa é reconhecer que a criança ultilizou a palavra certa naquela frase e repetir a palavra na sua língua materna. Ficar corrigindo e repreendendo pode causar desinteresse por parte da criança.

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